Qual a primeira coisa que você diz quando pedem pra você se apresentar? Seu nome e…? Sua profissão? Sua idade? A cidade onde você nasceu? Seu curso? Seu filho? “Prazer”?
Na reta final da faculdade, já perdi a conta de quantas vezes eu disse: “Eu sou a Rafa” seguido de um “estou em tal período”, como se essa fosse a informação mais importante que as pessoas precisassem imediatamente saber sobre mim: em que ponto eu tô do que eu tô cursando.
Para nós, jovens, muitas vezes o que nos “define” ou, no mínimo, nos “apresenta” é a escola em que estudamos. Pelo menos em Belo Horizonte, é bem comum ouvir um “Cêstudônde?”. Mas sempre que me perguntam, uma resposta direta nunca me parece suficiente. Costumo dizer: “Eu gabaritei escolas chamadas alternativas de BH, estudei em escola waldorf, construtivista, passei só dois anos num colégio muito tradicional, mas minha formação de ensino médio foi na escola pela qual sou mais apaixonada e que transcende ás categorias disponíveis — a Casa Viva.”
Falar que eu me formei na Casa Viva e que estou quase me formando em Arquitetura e Urbanismo me parece um bom jeito de me apresentar. Mas, atualmente, minha introdução preferida seria: “Eu sou a Rafa, sou uma pessoa que caminha.”
Dizer que vou andando para todos os destinos possíveis revela muito sobre quem eu sou e o que eu busco. E certamente devo muito disso a essas duas escolas — a Casa Viva e a universidade.
Assim como neste texto, no meu Trabalho de Conclusão de Curso eu não queria apenas escrever um artigo científico, mas algo permeado de vivências, em que eu pudesse narrar os meus próprios pontos de vista. O caminhar se tornou meu tema central de pesquisa na medida em que percebo como ele molda a forma como penso, enxergo o mundo e narro o que vejo.
Na verdade, essa temática se tornou um eixo da minha vida a partir de uma experiência do ensino médio. No meu segundo ano, em 2017, participamos de uma eletiva apelidada de “Flâneri”. Éramos um grupo de jovens, acompanhados pelo professor Guto Borges, que semanalmente se encontrava na porta da escola para andar sem rumo pela cidade — flanando e vendo o que ninguém vê. Essa experiência foi fundamental para que eu me tornasse quem sou e escolhesse o curso que escolhi. Foi quando desconstruí a ideia da cidade apenas como local de passagem, como um trajeto entre ponto A e ponto B, e comecei a perceber a complexidade, abundância e intensidade de situações que acontecem no espaço urbano — para além da função do deslocamento.
No campo do urbanismo, o caminhar vem sendo resgatado como forma de conhecimento e experimentação do espaço. Diversos autores e experiências contemporâneas reconhecem no andar uma ferramenta crítica, sensível e política de aproximação com a cidade, capaz de revelar aspectos invisibilizados pelas lógicas produtivistas e pelo planejamento tradicional.
Foi assim que, para o meu TCC, propus uma experiência parecida com a que vivi em 2017 – agora com os alunos da Fase 6 da Casa Viva. Durante o primeiro semestre de 2025, uma das eletivas ofertadas foi a “Cidades Caminháveis”.
Além de andar pela cidade, incentivamos os alunos a registrarem suas percepções em diferentes formatos — colagens, desenhos, escritos — em diários pessoais, onde surgiram reflexões e narrativas singulares sobre o espaço vivido.
Logo no primeiro encontro, em que pegamos o metrô e caminhamos pelo centro, algumas conclusões surgiram:
“O pastel é mais barato que nossa passagem” João Pedro (6A)
“Deve ser difícil trabalhar num banco e ver um tanto de adolescente tirando
foto da cidade. Bem turistas, né?” Gabi (6B)
“O centro é um encontro muito aleatório de pessoas. Você vê todo tipo de
gente.” Bel (6C)
As próximas caminhadas foram permeadas por diversas lembranças do carnaval – época em que a cidade é percorrida de forma lúdica – e por comentários surpresos como “nossa, a gente tá aqui?”, ao se darem conta dos trajetos sem rumo. À medida que caminhamos, fui aprofundando minhas leituras e a Internacional Situacionista se tornou minha principal base teórica — não só pela abordagem do flâneur e da teoria da deriva, mas principalmente pela ideia do “jogo” e pela valorização dos lazeres como práticas radicais de reapropriação do espaço. Essas ideias foram fundamentais para o envolvimento do grupo ao trazeremprovocações, como: “Se andar na rua é um jogo, quais são as regras?” ou “Será que todo deslocamento pode ser um passeio?”
Com o tempo, nosso jogo — que começou como andar, observar, refletir e registrar — se transformou numa proposta literal, em que interagimos com o espaço por meio de regras e desafios. Para os Situacionistas, o antídoto contra a espetacularização da vida seria a participação ativa dos indivíduos, especialmente no campo da cultura. E, certamente, tomar banho na fonte, tentar achar a casa uns dos outros sem usar o mapa, confundir os colegas com verdades e mentiras sobre os caminhos, sentar com cadeiras de praia no meio de uma rotatória… tudo isso foi um modo direto, ativo e divertido de experimentar o espaço urbano, criar situações e imaginar futuros.
Na reta final, após diversas caminhadas, surgiu a vontade de fazer uma (provoc)ação no espaço. Então saímos com um novo exercício: olhar para o que poderia ser transformado.
Em nosso último encontro, plantamos sementes frutíferas, alertamos sobre um semáforo que demora demais para fechar, colamos lambes que questionam: ‘’Essa é a cidade que você sonhou?’’.
Assim, a eletiva mostra a beleza de uma metodologia que estuda a si mesma e é construída com base nas diretrizes que ela mesma produz ao longo do processo, pois chegamos em um ponto que não foi e não poderia ter sido previsto em um planejamento inicial, antes de começarmos a caminhar.
A eletiva “Cidades Caminháveis” me permitiu revisitar minha própria história enquanto colaborava na construção de novas. Foi, ao mesmo tempo, uma forma de retribuir e de continuar caminhando junto. Como a Luna (6C) uma vez disse: ‘’se tem mais de uma pessoa andando junto, já é um grupo’’. E olhando para nosso grupo, me pego lembrando da época da minha própria formatura no ensino médio e das muitas sensações que me atravessavam enquanto eu passava a maior parte do meu tempo tentando ‘’decidir o que fazer da vida’’.
Ainda penso muito no futuro, mas hoje, à medida que ele se desdobra em mil
possibilidades, eu sei que o mais importante é continuar caminhando.
Ao ouvir as narrativas de cada um, percebo como o ato de caminhar segue potente, revelador, político. Mesmo com outras referências e outro tempo, os jovens continuam encontrando no caminhar uma forma de se aproximar do mundo e de si. Seguimos criando regras para o jogo urbano e desobedecendo as que não fazem sentido.
O mundo quer que tenhamos certeza ao dizer “eu sou isso”, “eu sou aquilo”. Mas qual o propósito de se afirmar como tantas coisas? Dizer o que a gente é, é muito pouco perto do que a gente pode ser. Caminhar me ensinou a gostar das perguntas mais do que das respostas.
Andar a pé é me dedicar á procura, prestar mais atenção à minha imaginação e passar mais tempo divagando. Agora, às vésperas de uma nova formatura, é bonito perceber que fui re-acolhida por um lugar que me formou de verdade — e que, desta vez, não me sinto angustiada buscando o “meu lugar no mundo”, porque eu já sei qual é. Ou melhor,entendi que ele não é, e nunca vai ser, um lugar.
Imensamente grata por toda a comunidade Casa Viva. Sempre. Para esses jovens, desejo sorte e coragem para caminhar. Me despeço com uma frase da
minha rapper favorita:
“Pra escolher caminho dói, ficar parado dá na mesma.”
– MC Luanna
















