O que pode nascer do encontro entre uma escola e uma escola de samba?

Nos últimos anos, a Casa Viva apresentou algumas propostas que dialogam com o universo do samba e do Carnaval de Belo Horizonte. No Aya – Festival de Cultura Afro-Brasileira, Ronaldo Coisa Nossa e Adriana Araújo estiveram na escola como entrevistados. Sambistas de duas gerações distintas, Ronaldo e Adriana são filhos da mesma comunidade, a Pedreira Prado Lopes – berço do primeiro desfile de escola de samba da cidade, em 1938. No ano passado, a cultura do samba também foi um dos temas do festival, dessa vez com a participação de Dona Eliza, uma das matriarcas do samba de BH.

Em 2025, contamos com a participação em sala de aula de Mário César, carnavalesco da Escola de Samba Unidos dos Guaranys, que dá continuidade aos esforços de sua antecessora, a Pedreira Unida. Um dos responsáveis pela retomada do desfile de passarela em Belo Horizonte há cerca de vinte anos, Mário César conversou com os alunos da Fase 6 sobre sua trajetória no universo do samba e destacou a importância da construção da identidade da população negra e periférica da cidade por meio do Carnaval.

O Carnaval vai muito além do entretenimento e da festa. O desfile de passarela é o resultado do esforço de muita gente, de uma comunidade inteira, que se dedica a contar uma história eleita como sua. Ele se volta para o passado para reinterpretá-lo, ao evidenciar personagens e temas muitas vezes negligenciados pelo presente, denunciar as persistentes desigualdades raciais e o racismo estrutural e possibilitar ao país a elaboração de seu próprio futuro. Para isso, combina pesquisa histórica e expressões artísticas multifacetadas, reunindo fantasias, carros alegóricos, poesia, música e dança.

Hoje, temos a oportunidade de estreitar ainda mais os laços construídos ao longo dos últimos anos com o Carnaval, por meio de um convite feito pela Escola de Samba Unidos dos Guaranys. Existe a possibilidade de a comunidade escolar participar da construção do Carnaval de 2026, que terá como enredo a trajetória de Marlene Silva.

Nascida no bairro Concórdia, Marlene Silva ganhou notoriedade internacional ao coreografar o filme Xica da Silva, de Cacá Diegues, em 1973. Logo depois, foi responsável por sistematizar e ensinar danças de matriz afro em Belo Horizonte, congregando comunidades congadeiras, terreiros de candomblé e umbanda, escolas de samba e grupos de capoeira. Sua presença reuniu e potencializou essas forças numa forte integração cultural na cidade.

A proposta é que a comunidade escolar da Casa Viva possa participar tanto da pesquisa sobre a trajetória de Marlene Silva – sobre quem ainda sabemos muito pouco – quanto da criação dos desenhos de fantasia para uma ou duas alas da Unidos dos Guaranys, além de contribuir na confecção das fantasias, na construção dos carros alegóricos ou em outras atividades, de acordo com as demandas da escola de samba e das possibilidades e desejos de cada um. A participação também é possível no dia do desfile.

Para a comunidade da Casa Viva, esta imersão no cotidiano da escola de samba, o contato com as pessoas e com os processos de construção do carnaval são oportunidades importantes para uma melhor compreensão do trabalho de base comunitária que estrutura o cotidiano das escolas de samba. Elas materializam nas fantasias, alegorias e outras expressões artísticas ligadas ao carnaval a identidade cultural e a resistência de suas comunidades, oferecendo um espaço para a expressão de diferentes vozes e a construção de um sentido coletivo. Coletivo este que, no plano temporal, material e simbólico, ultrapassa e muito o momento do desfile.

Este trabalho proporciona aos membros da comunidade Casa Viva uma oportunidade de ampliação do seu repertório de práticas sociais, artísticas e culturais fortemente ligadas ao território da nossa cidade. A colaboração proposta pode fortalecer a identidade da escola e seu projeto político-pedagógico, ao incorporar elementos de uma cultura rica e vibrante como a do carnaval das escolas de samba às suas atividades escolares como objetos de ação e reflexão.

Trata-se de uma troca de experiências entre as duas comunidades, que permitirá crescer juntos enquanto cidadãos de Belo Horizonte, atentos às potencialidades que temos como coletivo. Em outras palavras, é um convite para aprendermos novas histórias e construirmos, na rua, outras relações.

Nossa primeira troca presencial com a comunidade acontecerá no dia 25/09, quinta-feira, de 14h às 17h, e tem por objetivo central uma primeira aproximação de reconhecimento do espaço geo-político da PPL, da história, desafios e necessidades da agremiação, além do alinhamento das expectativas da contribuição da comunidade da Casa Viva no preparo e no desfile da escola de samba em 2026. 

A partir deste primeiro momento, definiremos grupos de pesquisa e trabalho. Visitaremos a comunidade uma vez por mês até final do ano letivo, em uma construção coletiva e democrática.

Esta carta é um convite aos professores e professoras do Ensino Médio, para quem quiser contribuir neste processo, trazer ideias, visitar o espaço e construir juntos. 



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